O concorrido povoado dos desolês.
A realidade exagerou. Passou dos limites. Até pouco tempo atrás, no povoado dos desolês, moravam os insatisfeitos, aqueles que nunca se conformaram de ter caído no planeta azul. Os ex- muito viciados também freqüentavam. Esses eram bem revoltados, diziam emocionados que a realidade tinha brigado com a possibilidade de felicidade e socado o senso de humor. Os perseguidos de infância, os vitimizados e os espancados também andavam por lá. Os que perderam o bilhete de loteria premiado e os ex-casados que foram rapelados pelo seus ex-apaixonados. Era um povoado pacato, bem freqüentado. As fotos eram proibidas porque as olheiras estavam muito fundas. Cada um tinha a sua especialização. Uns choravam mais. Outros preferiam ficar mudos. Outros coitados eram inconsoláveis e desajustados. Eles todos se conheciam pelo nome, tinham cada um o seu espaço para cuidar do coração em paz. A medicina ainda pesquisava uma pílula mágica, uma varinha de condão. E a poesia andava solta nas ruas. Às vezes berrava, às vezes dançava no ar. Mesmo assim eles sonhavam em voltar para a terra dos animados, se sentiam dês patriados. A questão é que o país dos Animados foi sendo desfalcado. O circo soltou o leão e fechou as portas. As padarias aumentaram o preço. Os engravatados de poder acumulado giravam para morder o próprio rabo. Só as contas chegavam. Os animado pararam de se cumprimentar e se denominaram estressados. A pilha de b.os ia subindo, estava sendo usadas como escada. Até que um dia a poesia foi asfixiada e entrou em coma. Os animados começaram a tirar visto para a terra dos desolados. Estes estavam cansados de viver isolados e acharam bem vinda a imigração. O que eles não calculavam é que eram muitos os maltratados na terra dos animados. Os primeiros animados chegaram detonados e foram recebidos com cuidado pelos anfitriões. Ficavam lá largados com a ferida exposta, mas reconheciam o semelhante na dor. E aí começou a comunicação. Os animados recém chegados escreviam para os parentes e recomendavam a viagem. Até subiu o preço da passagem, alguns vistos começaram a ser negados. Mas os animados, quando querem, dão um jeito e assim foram largando as suas amarras correndo pela fronteira, fugindo de seu lugar. Agora transborda a terra dos desolados. Aquele lugar pacato pra cuidar do coração não dá vazão de tanto desamparado. A poesia foi prensada devido à falta de espaço. Os animados se seguram nas margens dos desolados para não morrerem afogados. Inventaram a pílula mágica para esfriar angústias. Estão socados em um espaço bem limitado. Foram se transformando em algo bem afastado do que tinham pensado quando eram crianças. Agora vivem assim, na esperança de que chegue uma carta de alguma aldeia por aí que tenha um selo diferente e um nome bem inusitado. Uma terra com espaço pra cuidar do coração sossegado. Se alguém tiver notícia da nova terra prometida, por favor mande um recado. Coitados, é de sua natureza viver inconformados....
Escrito por Paula Cohen às 14h31
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Desabafo clínico de uma casada revoltada.
- Depois da nossa conversa Carlos Alberto, eu descobri que são três as coisas que andam me irritando muito. E o mais engraçado é que as três tem a ver com você. A primeira é você. A segunda é você com você. E a terceira é você com você, em relação a mim. Deu pra entender ? Pois é....então eu pensei e cheguei a uma conclusão. O problema é que você com você, não ta combinando. Como você não combina com você, você é incompatível. Já você com você mesmo é quase uma piada. Uma redundância, no pior sentido da palavra, de uma incompatibilidade chata elevada a enésima potência. Tá acompanhando o raciocínio Carlos Alberto Bom, em relação a você com você em relação a mim. Quer dizer a nossa relação, não está bacana Carlos Alberto. Vou tentar ser mais clara. A sua chatice elevada a enésima potencia, no pior sentido da palavra, tentando se relacionar comigo ta me irritando muito. Então vê se você dá um jeito em você Carlos Alberto. Sei lá....vira outro você....vira você do avesso. Por favor, larga de mim. Porque eu cansei de aturar qualquer você de você. Fica você, com o você que você quiser. E chega dessa conversa!! Até o eu de mim mesma tá ficando confuso Larga o meu eu de você, Carlos Alberto, que eu largo o teu você de mim.
Escrito por Paula Cohen às 18h16
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