Aquela música
Ela encostou no piano e pediu uma música que não se lembrava qual era. Ele dedilhou um ramo delas. Ela custava a puxar da memória. E era fundamental aos seus ouvidos e ao coração ouvi-la agora. Era uma letra tão doce e violenta. Tão alegre e tão triste. Tão livre e tão amarrada. Era uma melodia suave e perturbada. Grave e aguda de estilhaçar vidraças. Ele tentava, com o coração nos dedos, pelo pedido daquele olhar. Por toda a graça da angústia dela. Por toda ela. Ela fechava os olhos para tentar lembrar sua trilha, seu tema. E era uma dança de notas. De possíveis tons. De misteriosos acordes. E a música não aparecia nunca. Às vezes alguma lembrava aquela. Ou era só uma sensação. Passaram assim a noite. Entre marchas, sambas antigos e novos, valsas, jazz, temas de filmes, sons e sons e sons. Ele exausto dedilhava. Ela eufórica tentava reconhecer sua música. Aquela tão necessária aos olhos e ao coração. As mãos dele patinaram. Ele não podia mais. E fez-se o canto do nada. O barulho do ar. “Era essa”, disse ela, “exatamente essa que eu queria ouvir”.
Escrito por Paula Cohen às 18h58
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